


O que se pretende aqui é discutir um tipo de historiografia que não compactua com os modelos tradicionais de se interpretar a história. Os modelos tradicionais produzem uma história onde o homem comum nao é considerado um ser histórico, onde ele não participa da história. Para a História Local, ao contrário, todo homem é sujeito da história.
A estação ferroviária original de Uberaba, nos anos 1920.
Hoje, para todo lado que olha, o historiador ouve vozes. Isso porque, com os avanços teóricos e metodológicos trazidos pelas recentes discussões no campo da escrita da história, ele se vê diante de novas fontes historiográficas, passando a ter um novo repertório de objetos a serem analisados, uma verdadeira “revolução documental”, que muito contribui para um alargamento do conceito de documento.
A escrita da luz – a nossa fotografia – é uma dessas vozes que mais clama por um ouvido que possa escutá-la. Mais: possa também, além de escutá-la, compreendê-la. Fonte de memória bruta, a fotografia, desde que foi inventada em meados do século XIX, tornou o mundo familiar. O homem passou a ter um conhecimento mais preciso e amplo de outras realidades que lhe eram, até aquele momento, transmitidas unicamente pela tradição escrita, verbal ou pictórica.
Entrementes, como a fotografia é um fragmento de um mundo mais amplo, o conhecimento trazido por ela necessita de uma contextualização, posto que é um conhecimento obtido através do detalhe. Dito de outra forma: para se escutarem as vozes que ecoam das fotografias, antes de tudo, é preciso compreender a tensão permanente existente entre aquilo que se fotografou e o contexto que lhe deu origem.
Isso porque toda fotografia representa em seu conteúdo uma interrupção do tempo, e, portanto, da vida. O fragmento selecionado do real, a partir do instante em que foi registrado, permanecerá para todo o sempre interrompido e isolado. Diante disso, pode-se afirmar que a fotografia, tomada nesses termos, é uma re-apresentação da realidade. É dessa forma que se torna um documento histórico, uma fonte histórica.
Nessa perspectiva, o fotógrafo é um elemento muito importante nessa trama, uma vez que é ele quem seleciona um determinado detalhe do real a ser memorizado. Pela sua escolha, sempre intencional, podemos inferir elementos acerca do funcionamento da mentalidade do objeto fotografado. Isso nos permite dizer que o fotógrafo é, para o outro, um fabricador de versões da realidade, uma vez que, ao escolher uma cena a ser registrada, exerce um certo controle da memória.
Para não se tomar a versão do fotógrafo como sendo a única possível, é preciso superar as intenções daquele que a produziu. O valor e o alcance da fotografia enquanto documento histórico está na razão direta de quem consegue, em função de sua bagagem cultural, sensibilidade, experiência humana e profissional, formular-lhes as perguntas corretas e adequadas.
Outro aspecto a ser lembrado quando se toma a fotografia com a função de compreender o passado é perceber que a cena registrada na imagem não se repetirá jamais. Dessa forma, o historiador tem diante de si a perpetuação de um momento. Se quisermos, a perpetuação da memória: memória individual, memória coletiva, memória dos costumes, da natureza, etc.
Sendo a fotografia um resíduo daquilo que se foi, contemplá-la e compreendê-la é acessar um tempo histórico não mais disponível, entretanto, presente. Presente, sobretudo, na comoção de que somos tomados ao giramos a chave do passado e, dessa forma, trazermos de volta para o presente um turbilhão de emoções esquecidas, mas que graças ao contato com o fotograma não está condenado ao esquecimento.

1968, o Ano que Não Terminou (Editora Nova Fronteira) foi o primeiro livro que eu li sobre a ditadura militar. Escrito em 1988, quando os acontecimentos de 68 completaram 20 anos, este livro é referência para quem deseja compreender melhor este fatídico ano. Dessa primeira leitura (já li mais de 4 vezes), veio o desejo de entender os anos de chumbo da ditadura militar e suas conseqüências para a cultura política brasileira. A experiência causada pela leitura do livro somada às aulas de Brasil República com o professor Euphranor e a curiosidade sobre a figura de Gildo Macedo Lacerda (o que eu sabia à época é que ele, militante do Movimento Estudantil, havia sido morto pelos órgãos de repressão da ditadura militar), despertaram o meu desejo de pesquisar mais sobre o assunto. Essa curiosidade resultou na minha dissertação de mestrado, onde Gildo é o principal personagem.



Os amigos vão me dar licença, mas vou falar novamente sobre outras igrejas de Uberaba. As suas torres sempre me chamaram atenção. As fotos que trago desta vez são da fachada da Igreja Santa Teresinha, das torres da Igreja São Domingos e do Cristo da Catedral Metropolitana de Uberaba.
A primeira foto, da Igreja Santa Teresinha, foi tirada da calçada da praça que a abriga, bem em frente a porta principal.
A foto das torres da São Domingos foi tirada do entrocamento da av. Leopoldino de Oliveira com a rua Segismundo Mendes. Me foi sugerido usar o photoshop e "apagar" os fios, garantindo, assim, uma melhor estética. Não posso fazer isso, pois estaria falseando o detalhe. Prefiro prejudicar a estética, mas garantir a veracidade da imagem. Afinal de contas, os fios existem, não é mesmo?
Já a fota do Cristo da Catedral, foi tirada da Praça Rui Barbosa, bem em frente as grades do portão principal (elas são mesmo necessárias?).
Abaixo, um breve histórico de cada uma delas.
A Catedral Metropolitana de Uberaba começou a ser construída em 1827, passando desde então por inúmeras reformas. Com a trasferência da sede do Bispado de Goiás para Uberaba, em 1899, a Igreja da Matriz ganhou prerrogativas de Catedral. Em 1907, a Catedral é transferida para a Igreja Adoração Perpétua, recém construída. Mas em 1926, Dom Almeida Lustosa, 2º Bispo de Uberaba retornou a Catedral para a Igreja da Matriz e, assim permanece até hoje. As atuais feições da Catedral Metropolitana de Uberaba deve-se a última grande reforma, realizada em 1933.
A primeira Igreja dedicada a Santa Teresinha foi inaugurada em 31 de março de 1929 e demolida em 1961, dando lugar ao atual templo. Dom Alexandre Gonçalves do Amaral, Bispo de Uberaba à época, deu sua benção para a nova construção no dia 02 de outubro de 1960. As obras ficaram aos encargos do engenheiro uberabense João Laterza. Finalmente, no dia 07 de março de 1965, foi realizada a primeira missa.
A pedra fundamental da Igreja São Domingos foi lançada pelos padres dominicanos em 1895, mas sua inauguração só ocorreu em 1904, ainda sem as torres, as quais foram terminadas em 1914. Por esse motivo ficaram com estilo diferente da construção original, que é toda construída em tapiocanga de cor avermelhada.
Voltamos, depois, com mais detalhes do lugar. Abraços...




Recentemente o jornalista Juca Kfouri escreveu na Folha de S. Paulo (24/07/2006, p. D3) que, hoje em dia, assistir aos jogos dos campeonatos locais e torcer pelo nosso time do coração é “incomparavelmente mais gostoso” do que ver os jogos da Copa do Mundo e torcer pela seleção brasileira. Tanto concordo com ele que quando o intrépido esquadrão do Uberaba Sport Clube só empatou com Valério em casa e o Tupi venceu o Juventus ─ combinação de resultados que adiou os planos do colorado de retornar a elite do futebol mineiro em 2007 ─ fiquei muito mais aborrecido do que com o vexame do escrete canarinho em plagas alemãs. E se você também pensa assim, saiba que não há nada de errado conosco.
O que nos acomete é um processo de identificação muito mais focado no nosso espaço local do que em percepções generalistas e globalizantes. Dito de outra forma: o que acontece ao nosso redor nos é mais importante (ou pelo menos deveria ser) do que aquilo que acontece distante de nossa realidade. Segundo o professor Luiz Reznick, historiador da Universidade Federal Fluminense, “a contigüidade territorial, a proximidade espacial, as relações de vizinhança e cotidianidade estabelecem uma ética de pertencimento singular”. E essa sensação de pertencimento nos faz sentir seguros, uma vez que no espaço local as pessoas e as coisas me são familiares.
Quero aproveitar a idéia acima esboçada para discutir a importância, cada vez maior, do espaço local. Não só historiadores deram-se conta disso, mas sociólogos e antropólogos também. Aliás, a interdisciplinaridade é marca registrada da história local. Compreenderam, esses intelectuais, que por intermédio de pequenos recortes históricos, podem ser alcançados e identificados contextos mais amplos outrora incompreensíveis. Diminuindo-se a escala de abrangência do objeto estudado, podemos perceber detalhes que para um olhar mais apressado seria impossível perceber.
A forma como a história tradicional compreende os fenômenos históricos, torna-os distantes da vida das pessoas. Fala-se nos grandes homens, nos grandes heróis que no dia x do mês y do ano z fizeram e desfizeram coisas. Homens que agiram iluminados pela certeza de estarem fazendo o correto, que não tinham dúvidas, que nunca titubeavam. Faz-se assim uma história idealizada, alienante e distante da concretude da vida real. E é por isso que os alunos, muitas vezes, não gostam de estudar história. Que sentido há em se estudar algo que não me diz respeito?
Essa idealização, e conseqüente distanciamento das pessoas em relação aos processos históricos, é item a ser combatido na história local, para quem todo homem passa a ser agente da história. A história local se interessa pelas massas anônimas, por contar a história das pessoas simples e sua vida cotidiana. Entende a história local que essas pessoas simples e suas histórias igualmente simples também compõe o cenário daquilo que chamamos de história.
É preciso ressaltar que a história local não abandona as normas, a regra geral, circunscrevendo-se em si mesma. O que ela propõe é entender essas normas gerais a partir de análises particulares. O pesquisador do ambiente local, usando instrumentos adequados, sabe que é possível alcançar uma macro-história através de uma micro-história. O contrário nem sempre se dá.
Fernando Pessoa, na figura de Alberto Caeiro, dizia que “o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia”, por uma razão muito simples: “o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”.